Compreendendo os olhares europeus sobre a Índia – Parte II





Dentre os principais indólogos, o filólogo inglês William Jones (1746-1794) é um dos que merecem atenção redobrada. Assim como o jesuíta francês Gaston-Laurent Cœurdoux (1691–1779), esforçou-se em estudar o sânscrito, principalmente para aproximá-lo das línguas europeias como, por exemplo, a própria língua inglesa. A empreitada de Jones traduziu-se, à grosso modo, como um embelezamento da antiga língua utilizada  pela classe sacerdotal bramânica. Por trás desse gesto, há duas importantes considerações a serem feitas, a saber, sobre a hipótese das línguas indo-europeias e sobre um efetivo deslumbramento europeu em relação às tradições indianas.





Jones, tal como Coeurdoux, comparou o sânscrito com outras línguas clássicas. Ao entrar em contato com a Índia, os britânicos se deram conta do acervo notável de textos escritos, que logo incitou pesquisas filológicas. Foi na execução deste trabalho que o Sir propôs semelhanças entre sânscrito, grego antigo e latim clássico, por via de evidências fonéticas e morfológicas. Esta longa pesquisa revela, de certo modo, um deslumbramento do olhar europeu para com tradição gramatical indiana, pois os chamados filólogos orientalistas da Europa depararam-se com descrições minuciosas acerca dos sons e dos morfemas da língua clássica indiana.


Talvez, tal deslumbramento tenha se tornado mais evidente na influência indiana sobre a obra de Arthur Schopenhauer (1788-1860). O filósofo alemão viveu num período posterior ao de Jones, em que houve uma recepção europeia tardia de textos indianos escritos. O conceito de representação na obra do pensador dito pessimista é, entretanto, muito otimista, se considerados os ecos da obra de Sir Jones nele contidos. Ora, assim como o inglês, Schopenhauer defende a ideia de que as diferentes culturas do mundo tendem a apresentar diferentes representações do mundo, para além da realidade objetiva.





Embora as ideias embrionárias sobre a língua natural como princípio de classificação do mundo contidas na obra de William Jones e refletidas na de Arthur Schopenhauer sejam uma base incontestável para a línguística até os dias atuais, este não foi o principal legado deste indólogo. A ideologia colonial pesava a ponto de William Jones ser lembrado apenas como fundador da hipótese das línguas indo-europeias. O próprio termo indo-europeu, após a proposta de semelhança entre as três línguas clássicas, feita por Jones, enraizou-se na classificação das línguas e culturas do mundo.



Além de impulsionar em boa parte das universidades da Europa continental o estudo comparativo das línguas naturais, William Jones  instaura uma discussão sobre a origem da civilização ocidental, definida com uma suposta população indo-europeia. Os rumos de tal discussão são muito abrangentes mas, com certeza, tal tema foi um dos mais utilizados para a subjugação cultural da Índia e isso será mais detalhado nas próximas postagens. 


A obra completa de William Jones encontra-se disponível na internet, em sites como o que segue:


http://archive.org/search.php?query=Sir%20William%20Jones

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