Compreendendo os olhares europeus sobre a Índia – PARTE VII

É preciso esclarecer melhor como se deu o evolucionismo no tratamento da Índia antiga e da língua sânscrita. Como protagonistas deste cenário, o já citado Charles Darwin e August Schleicher. Suas obras se confundem em alguns pontos, principalmente no tratamento que deram ao tema da origem do ser humano. Tanto um quanto o outro propuseram metodologias genealógicas para lidar com diferentes objetos de estudo. Enquanto Darwin elaborou uma genealogia dos seres vivos, Schleicher a fez em relação às línguas naturais, definidas como organismos vivos, semelhante à taxonomia botânica.

Por trás deste ponto de vista biologicizante da linguagem, o autor alemão também traz consigo um forte embasamento romântico, que o fez aproximar a sua língua materna à hipótese do indo-europeu de um modo polêmico. Ele traduziu fábulas germânicas (Schleicher´s Tale) ao que considerava ser a melhor reconstrução de uma suposta língua original e pura, o proto-indo-europeu. Darwin, por sua vez, escreveu, além do tratado sobre a origem das espécies, duas outras obras de impacto para o estudo das línguas naturais: The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex e The Expression of the Emotions in Man and Animals, ambas aplicações do evolucionismo aos estudos sobre o ser humano e as culturas, nas quais há uma origem única do ser humano e, por consequência, das culturas e comportamentos e, ao longo do tempo, são geradas muitas variações.



Apesar de não terem dialogado diretamente, estes autores levaram às últimas consequências os estudos sobre origem das culturas, no sentido de terem reduzido o ser humano à sua natureza. Nessa perspectiva, as culturas e as línguas naturais também sofreriam processos de competição e adaptação e, sob a influência do pensamento romântico, o método genealógico elucida as línguas e culturas mais fortes, que sobreviveram à competição e é nesse sentido que a fábula de Schleicher é tendenciosa, ao tentar provar que a língua alemã apresentava mantinha muitos traços de uma suposta língua original, a ponto de ser possível uma eficiente tradução.

Embora a teoria darwiniana e mesmo o método genealógico de Schleicher tenham trazido contribuições aos estudos comparatistas de modo geral, é impossível não privilegiar uma civilização em detrimento de outra. A fábula de Schleicher é uma tentativa de mostrar como as línguas da europa poderiam ser tão complexas quanto a língua sânscrita, não no sentido de Whitney, que pensava as línguas em sua dimensão social e sim num sentido evolucionista. Ou seja, uma língua como a alemã era tão complexa quanto a língua sânscrita, diferente das línguas da América e da África, cujas origens eram difíceis de serem mensuradas. Neste sentido, mesmo as demais línguas indianas, desprestigiadas pela casta bramânica, seriam inferiores! Só importava o homem à cavalo, supostamente indo-europeu, como se a civilização só começasse na Índia a partir de uma cultura como a descrita pela fábula!

Para ver a fábula de Schleicher traduzida ao inglês:


Versão em francês, com animação disponível no youtube:

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión /  Cambiar )

Google photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google. Cerrar sesión /  Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión /  Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión /  Cambiar )

Conectando a %s