Vamos brincar de índio? Não! Vamos brincar de genocídio – parte II


A aparentemente eterna oposição natureza vs cultura continua produzindo efeitos. Quando vemos um caso como o dos Guaraní Kaiowá, algum que consegue a sorte de ser veiculado, percebemos que essa oposição naturaliza a barbárie e genocídio e quando não apaga, ridiculariza tudo o que não é como se “deve ser”. Isso baseados em critérios de um padrão eurocêntrico, machista e patético.
Nunca me esqueço da imagem plantada em minha infância de índio. Era ele aquela criatura que não é homem branco, civilizado ou culto. Ele não formava parte da cultura, não era capaz de produzir nada que não fosse exótico, raro, engraçado ou de valor menor (quando não nulo). 
Estava instalada sem que eu percebesse a dita oposição: se o índio não era civilizado e não pertencia à cultura ele era da natureza. Aparecia sempre com suas vergonhas de fora e no meio dos animais. Não era um animal pois o papa Paulo III já tinha proclamado a sua humanidade em 1537. Ainda bem!
O que quero discutir aqui é como esse imaginário de um indivíduo incapaz de produzir uma língua articulada (“índio fazer barulho”) com um grau de complexidade que a tornasse digna de se estudar pode persistir ainda hoje, em pleno século XVI XXI. Em seu texto, Daiara Tukano  nos apresenta alguns dados já que  só valorizamos aquilo que está escrito, em que menciona 183 línguas indígenas. 
Para aqueles que ainda acham que índio só sabe fazer uhuhuh, que consultem e conheçam o trabalho do professor Aryon Rodrigues e de tantas outras pessoas estudiosas, e que descubram a distribuição espacial dos pronomes em tupi antigo.
Um genocídio continua sendo um genocídio, se as vítimas são os astecas e incas no século XVI, a África no século XIX, os judeus no século XX, ou os Guaraní Kaiowá. Não importa se a morte é real e física ou simbólica e cultural. 
Cultural sim porque todo produto da ação humana é cultura. Uma língua, uma nação e uma cultura não podem ser exterminadas. Gosto muito de um termo que ouvi da boca de amigos galegos falando sobre a sua língua, chamavam-na minorizada. Uma língua indígena ou de uma nação histórica que sofre perseguição e dizimação não é minoritária, mas minorizada. Deixamos de marcar um critério quantitativo e marcamos o processo violento de perseguição e resistência que atravessaram essas línguas. Resistência frente a um mundo que globaliza e fagocita sob a capa de reconhecimento de uma alteridade.

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