Antropofagia de resistência

Deve ser legal ser negão no Senegal

“Coitadinho, ele é índio! Não sabe falar, não vai entender”

“Nossa, mas você é índio, você tem que preservar as suas raízes, manter as suas tradições! Não pode aceitar isso, ou fazer aquilo”

“Ah, mas ele usa roupa, ele pinta o cabelo, ele acessa a internet… ele não é índio”

Embora sejam fictícias essas frases podem, com variações, ser ouvidas em diferentes contextos, produzidas por falantes analfabetos, escolarizados, professores doutores… Não importa a origem, o nível socioeconômico, a região, o credo, ou a profissão, o preconceito e a necessidade de definir a identidade do outro, caminham lado a lado.

Quero me deter neste momento, mais especificamente, na capacidade que temos – como parte de um senso comum que, por sorte!, não é o único ponto de vista – de julgar o pertencimento étnico-racial de nossos semelhantes, e mesmo de desautorizar as identidades assumidas.

O Brasil é uma nação multicultural, multilíngue, multi! Não me refiro a correntes teóricas, assim como não fui buscar em dicionários a terminologia específica. O que quero dizer aqui – clichê mesmo – é que nossa história foi construída sobre a mestiçagem. Isso NÃO quer dizer que não houve conflito, ao contrário, essa alabada condição mestiça foi obtida a custa de negociações nem sempre pacíficas ou justas, e, de violações (de todas as formas possíveis).

Contudo, se não podemos ignorar o conflito, apagando-o, tampouco seria interessante que apenas pisássemos e repisássemos esse terreno, sem nos apropriarmos dele, sem fazermos dele um instrumento de luta, de resistência, mas de transformação. Transformar a ação, de modo a nos nutrirmos daquilo que está em nossas raízes e aprendermos com os erros e acertos do passado. Pisar na terra até despertarmos os nossos tataravós, e para nos lembrarmos daqueles que morreram dando o sangue por aquele solo em que se pisa


Antropofagia de resistência

Muitas vezes nos valemos, ou mobilizamos mesmo que de modo inconsciente, aquelas informações iniciais para dizermos que alguém é ou não negro, indígena, mulato, pardo, homem, mulher… Como se estivéssemos, por alguma propriedade transcendental, autorizados a definir a identidade do outro, da outra. Talvez como fuga de questionamentos suscitados quando tais indivíduos estão na nossa frente, ou dito de outra forma, porque a segurança na afirmação de alguém que é e se assume como indígena, negro/a, pessoa trans, faz com que nós nos confrontemos com a nossa própria identidade.

Longe de por fim (ou mesmo início) a tal discussão, o que eu gostaria de compartilhar com quem bravamente chegou até esta linha, são dois casos que nos mostram uma espécie de antropofagia como forma de resistência. Os dois casos se referem a grupos maori, povos originários, entre outros lugares, da Nova Zelândia.

Logo mais pretendo trazer uma discussão em especial sobre um deles, o caso dos All Blacks, mas isso é algo para os próximos capítulos…

https://youtube.googleapis.com/v/x4U4nn66vQY&source=uds
A encantadora de baleias
(Whale rider – 2002)

 



A história de Paikea é além de interessante, uma mostra de um empoderamento e resgate das tradições, algo que acontece em um momento crítico, quando justamente a tradição parece ter sido perdida.


All blacks – Haka

A seleção neozelandesa de rugby, uma das equipes mais fortes do mundo na modalidade, há mais de cem anos realiza um canto de guerra maori antes de suas partidas. Trata-se de uma identidade nacional que provem das raízes daqueles que representam aquela nação, mas deixemos isso para a próxima semana!

E aí, você continua achando que tradição e modernidade, duas palavrinhas tão carregadas de sentidos, são mesmo tão contraditórias? Ou complementares? Fica aí uma reflexão para a qual eu acredito que jamais vou ter resposta…

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