Línguas, culturas, fronteiras

Línguas, culturas, fronteiras

“Eu não preciso estar sem as minhas roupas para afirmar a minha identidade indígena”, “África não é um país” “Não se fala somente português e espanhol na América Latina”… O que essas frases querem dizer?

A primeira impressão é a de que cada vez que damos um zoom, ou seja, quando tratamos de observar algo mais de perto, redefinimos os nossos conceitos. Isso, na realidade, é um exercício de alteridade, de (re)conhecimento do outro.

Essa publicação, que está vinculada aos encontros do grupo de Transculturalidade da UNILA (Projeto de extensão: PROEX-UNILA (Parceria com o NTF) A diversidade na escola), propõe discutir sobre esse processo e como nós podemos nos valer disso para enriquecer as nossas experiências.

Vamos, então, tentar fazer esse exercício de zoom com alguns mapas.

O primeiro mapa mostra a divisão política atual dos países latino-americanos. Agora, vejamos um mapeamento do mesmo continente, do ponto de vista linguístico.
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http://cdn3.vox-cdn.com/assets/4700766/Human_Language_Families_Map.PNG

Quais seriam as diferenças encontradas se comparamos os dois mapas? Por que isso se dá?

Poderíamos dizer que o primeiro mapa – o político – nos mostra apenas as divisões, fronteiras entre nações construídas há pouco tempo. Já o segundo mapa – linguístico – nos permite observar a diversidade linguística e cultural, sem limitar a fronteiras políticas, já que a língua e a cultura não obedecem essas fronteiras. Passar do primeiro para o segundo mapa é um verdadeiro exercício de zoom, de ampliar nosso olhar, ou uma forma de nos aproximarmos mais das pessoas que vivem nessas regiões.

O que queremos dizer com isso? Que só existem fronteiras entre Estados? Pelo contrário. Também existem fronteiras entre as línguas, principalmente quando pertencem às mesmas famílias linguísticas, mas são fronteiras que exigem um esforço maior para detectar, um zoom mais “fino”.

O português e o espanhol são línguas da mesma família, a românica e, por essa razão, no segundo mapa a cor azul, que identifica essa família, predomina no que conhecemos como América Latina. Em regiões fronteiriças latino-americanas, por exemplo, há muitos contextos nos quais há intercompreensão entre o português e o espanhol. Em geral, as pessoas, quando querem se comunicar, tendem a fazer um esforço comunicativo, por meio de gestos, diminuindo o ritmo da sua fala, etc. Quando atravessamos uma fronteira caminhando ou viajando de barco, já nos damos conta de que as divisões políticas mais atrapalham do que ajudam a compreender a diversidade linguística e cultural.

O grande nó dessa relação entre línguas e fronteiras é o fato de que muitas vezes a construção das divisões políticas dos Estados se baseou numa afirmação falsa: a de que um Estado tem de ter uma só língua. Esse movimento se fez muito presente em diversos países que se formaram na Europa. Suas origens estão relacionadas a correntes de pensamento ligadas ao romantismo alemão. Por séculos, os estudos sobre língua e cultura se basearam nessa afirmação falsa, pensando que um povo tem uma única língua e que, se esse povo deixa de falar a sua língua, perde a sua cultura.

Como existem muitas formas de transmissão de conhecimentos, uma pessoa pode aprender práticas da sua comunidade por meio da culinária, de danças, da produção de artesanatos, etc. Portanto, a língua é um dos muitos modos de transmissão de conhecimentos. Não é o único. E isso pode nos ajudar a compreender comunidades imigrantes, por exemplo, que nem sempre seguem falando a sua língua (alemão, italiano, japonês, etc) mas que seguem afirmando suas identidades por meio de outras linguagens (corporal, visual, etc). Está sendo produzido, por exemplo, o documentário “Receitas da memória”, com comunidades imigrantes de Santa Catarina:

http://e-ipol.org/em-cena-o-documentario-do-ipol-sobre-linguas-receitas-e-memorias/


Por que é importante, nos dias atuais, problematizar essas divisões dos Estados?

As pessoas talvez nunca se deslocaram tanto como hoje, dentro da lógica conhecida como globalização. Nossa educação deve preparar as pessoas para que saibam lidar de modo positivo com essa diversidade linguística que elas poderão encontrar. As pessoas podem desenvolver as habilidades de se comunicar em contextos onde não se fala a sua primeira língua. No caso do Brasil, por exemplo, devemos partir do ponto de que não se pode pensar que se fala somente português num território tão grande. Sempre houve contato entre diferentes povos e culturas. O terceiro mapa, logo abaixo, propõe zonas baseadas nos relações, nem sempre harmoniosas, entre povos africanos, indígenas e imigrantes (afroamerica, indoamerica e euroamerica, respectivamente). No futuro, parece que não será diferente. O importante é termos consciência dessa realidade que é o contato constante com outras línguas e culturas e de que os preconceitos são aprendidos. Isso quer dizer que podemos reduzir preconceitos por meio da educação.

 Convite para um Exercício:

Para ganhar mais visibilidade, muitos povos indígenas começaram a fazer vídeos sobre seu cotidiano, de modo a evitar imagens mais preconceituosas veiculadas por outros canais. Educadores de escolas públicas estão se valendo  desses vídeos para produzir outros materiais, com base na reflexão dos seus alunos. Seria, então um exercício de zoom sobre outros povos e sobre si mesmo.

1) Assista ao vídeo “Das  crianças Ikpeng para o mundo” e, em seguida, “De algum lugar do mundo para as crianças Ikpeng“.

2) Outra atividade significativa é a utilização de tecnologias gratuitas para a produção de materiais dos próprios professores. Em São Paulo, um grupo de educadoras e educadores fez esse exercício de zoom sobre os nomes dos lugares, especialmente bairros de São Paulo. Nesse caso, as educadoras e os educadores percorreram a memória que os mais velhos têm sobre o lugar e como ele é atualmente, provando que o estudos dos nomes pode ser uma ferramenta interessante para que as escolas investiguem a sua própria realidade.

3) Tendo em vista esses tipos de iniciativas, como você proporia atividades educativas que sejam significativas para a sua comunidade escolar?

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